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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Polícia indiciará jovem marcada com suástica por suspeita de falso testemunho

Investigação diz que cortes são automutilação ou foram provocados com consentimento da vítima. Defesa insiste que houve ataque e diz que laudo confirma que a jovem não reagiu à agressão


A jovem que denunciou há duas semanas ter sido atacada e marcada com uma suástica por apoiadores de Jair Bolsonaro será indiciada sob suspeita de falso testemunho. Segundo a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, onde ocorreu o caso há duas semanas, uma perícia apontou que os ferimentos no corpo da jovem foram provocados pela própria vítima ou por outra pessoa, mas com o seu consentimento. A defesa da jovem nega. E afirma que o laudo não encerra a investigação, pois aponta apenas que a jovem não reagiu à agressão, conforme ela mesma já havia relatado.

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Segundo o laudo técnico do exame de corpo e delito realizado pela polícia, as lesões apresentam padrões que "demandaram cuidado na sua produção" e sua uniformidade dificilmente seria produzida se a vítima tivesse "preservada sua capacidade de reação, seja por medo, susto ou reflexo". O delegado Paulo Cesar Jardim, especialista em crimes neonazistas e responsável pelo caso, diz que o laudo é "absolutamente conclusivo" de que a jovem comunicou um falso crime ao fazer a denúncia.

A estudante de 19 anos afirmou ter sido agredida com socos e tido o corpo marcado com um símbolo semelhante a uma suástica por três homens um dia depois do primeiro turno eleitoral, enquanto circulava por uma rua de Porto Alegre com uma bandeira de arco-íris na mochila e vestindo uma camiseta com os dizeres #Elenão, slogan contrário ao candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL). Ela denunciou o caso à polícia no dia seguinte, quando fez também um exame de corpo e delito, mas decidiu não levar a denúncia adiante pelas consequências psicológicas do ataque que afirmou ter sofrido. "Ela estava bem nervosa e assustada e até hoje não se recuperou", diz a amiga que a incentivou a denunciar o caso, sem comentar as conclusões da investigação.

O laudo desse exame, divulgado na manhã desta quarta-feira (24), aponta que não foram encontradas na vítima "lesões na face ou nas mãos e nos antebraços que sejam características de autodefesa". Indica ainda que os cortes foram superficiais, estão localizados em "regiões do corpo facilmente acessíveis às mãos da própria vítima" e foram produzidos com "habilidade" e "cuidado". "Pode-se concluir que as lesões tenham sido produzidas cautelosamente, de modo a não causarem danos às camadas profundas da pele, provocando alterações que são apenas superficiais", atesta o laudo.

O delegado Paulo César Jardim afirma que a resistência da vítima em levar a denúncia adiante, a ausência de cortes mais profundos e a simetria do símbolo desenhado na pele da jovem levantou suspeitas. Agora, com o laudo, ele diz não ter dúvidas de que se trata de "autolesão". Apesar do caso ter repercutido por possíveis motivações políticas, Jardim diz que não existe hipótese de que a jovem tenha forjado o crime para prejudicar qualquer candidato. "Não existe essa hipótese. A moça na realidade tem problemas emocionais. Ela toma remédios muito fortes, faz tratamento psiquiátrico e está sendo acompanhada", afirma. Agora, informa o delegado, a estudante vai ser indiciada por falso testemunho.

A advogada Gabriela Souza, que representa a jovem, contesta as conclusões do delegado e diz que o teor do laudo "reafirma a convicção da defesa de que a jovem foi vítima de um ataque", já que não descarta que as lesões podem ter sido causadas por outro indivíduo, inclusive mediante incapacidade de defesa da vítima. "Isso apenas comprova o teor do depoimento da vítima, que não esboçou reação durante o ataque e sofreu estresse pós-traumático, situação que se mantém até o momento", afirmou em nota.

Ainda segundo a advogada, a defesa da vítima espera que as investigações continuem e que sejam apresentadas imagens de câmeras de segurança e ouvidos depoimentos de pessoas que teriam prestado auxílio à jovem atacada. O delegado Paulo César Jardim, porém, diz que a Polícia Civil trabalha com outras provas e que analisou imagens de 12 câmeras de segurança e conversou com mais de 20 pessoas no entorno de onde teria ocorrido o ataque, porém não conseguiu confirmar os fatos narrados pela estudante. "A investigação foi finalizada e encaminhada à Justiça", diz o delegado.

Muitos crimes e agressões com motivações políticas vêm sendo denunciados desde o primeiro turno das eleições. Em 10 dias, pelo menos duas pessoas foram assassinadas e outras 70 sofreram agressões por conta de seus posicionamentos políticos, de acordo com levantamento do Open Knowledge Brasil e da Agência Pública. Os dados mostram que em seis dos casos as vítimas foram apoiadores de Bolsonaro; as demais foram agredidas por pessoas favoráveis a ele.

AS INFORMAÇÕES SÃO DO SITE EL PAÍS

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