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Gabriel O Pensador conta por que fez 'Matei o presidente 2' para Temer

25 anos depois da original que compôs para Collor, rapper atrai atenção com nova versão

RIO - Numa época em que o rap nacional não tinha nenhum espaço nas rádios, um desconhecido rapper branco de classe média da Zona Sul do Rio mandou uma fita demo a uma estação carioca e fez nascer um improvável hit: "Tô feliz (Matei o presidente)", uma "homenagem" a Fernando Collor de Mello, que passava então por um processo de impeachment. Agora, 25 anos (e um tanto de hits) depois, Gabriel O Pensador, o jovem rapper de 1992, reedita o tema em "Tô feliz (Matei o presidente) 2", desta vez mirando em Michel Temer. O clipe, lançado há uma semana, já passou das 3 milhões de visualizações.

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Em 1992, a música teve sua execução proibida por ação do Governo Federal. Nos últimos dias, circulou o boato de que Gabriel teria recebido uma "notificação do Gabinete da Presidência" solicitando a retirada do clipe do ar. A história foi negada pela assessoria do artista.




 Filmado na Amazônia, o clipe mostra Gabriel narrando a cena imaginada do assassinato de Temer e de outros políticos: "Se é contra arma de fogo, vai no estilo dos nativos/ Invade a Câmara e pega os sacanas distraídos/ Com veneno na zarabatana, bem no pé do ouvido/ Em nome da Amazônia desmatada/ Leva um arco e muitas flechas e finca uma no coração de cada". Por fim, ele pondera que "Eu não matei nem vou matar literalmente um presidente" e que "O Pensador é contra a violência", reforçando o caráter simbólico de seu protesto, numa letra que faz referência direta também a Jair Bolsonaro, apelidado de Bolsomito por seus seguidores ("E é o povo desunido que se mata por partido/ Sem razão e sem noção/ Chamando políticos ridículos de mito").

Nesta entrevista, Gabriel explica o que o motivou a compor "Tô feliz (Matei o presidente) 2", lamenta a polarização política do Brasil e reafirma sua crença em que "a corrupção é a mãe de muitos problemas".

Passamos por três presidentes e algumas crises nesses últimos 25 anos. Por que voltar agora ao "Tô feliz (Matei o presidente)"?



Eu venho fazendo músicas de protesto e indignação durante vários mandatos de vários presidentes. Depois do impeachment de Collor, soltei o "Abalando" (em 1993), protesto contra a censura, mas também uma intimação para o povo ir para a rua, se manifestar. Essa música foi até lembrada em protestos mais recentes. (Marcelo) Yuka comentou uma vez comigo como a gente era tido como ingênuo, por fazer composições falando que o povo ia acordar. Quando começaram a rolar os protestos, ele lembrou que falou isso pra mim. Depois do "Abalando", fiz o segundo disco, que tinha "FDP" e outras sobre corrupção. Fiz o "Pega ladrão" na época do escândalo do painel de votações, no governo Fernando Henrique. Fiz "Até quando", "Chega", que veio ja na época mais recente, pouco antes do governo Temer. Já tinham até pedido para eu fazer uma letra assim, voltar ao "Matei o presidente", independentemente do presidente ou da presidenta que estava no poder. Eu não ia fazer, mas veio o decreto da Renca (Temer tentou extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados, o que liberaria a exploração privada de uma área de 4 milhões de hectares da floresta amazônica), uma demonstração de descaso muito grande com o que é nosso. Esse foi o estopim para pegar a caneta e fazer a letra. Veio de uma vez. Não foi por motivação partidária, mas sim uma demanda por respeito, por mais seriedade, menos impunidade. São desejos de todos. Pena o Brasil ter se polarizado tanto, porque na verdade o que todos querem é a mesma coisa.

Como foi o processo de composição? Que ideias e versos surgiram primeiro, como a canção foi se desenrolando? Diferentemente da primeira vez, você agora explica que é contra a violência, que é uma morte figurativa... Por que você achou necessária fazer essa observação hoje?

A composição foi tão intuitiva que não me lembro bem, mas gostei que ela veio com a primeira parte e o meio com coisas bem revoltadas, mas no fim tive ideia de refletir, fazer um desfecho mais sensato e mais claro. A ideia de acalmar a batida naquele final, aquilo funcionou muito bem, como se fosse um convite a parar para pensar. A gente vem naquele ímpeto, mas no fim... "opa, peraí, vamos pensar por que estamos com esse sentimento no coração". Aí vem uma parte que usa mais a razão.

Num momento em que a arte está sendo policiada à direita e à esquerda, você teme algum tipo de reação? Seja como crítica ou seja mesmo uma ação legal na Justiça contra a música?

A gente tem essa função, o artista expressa o povo. Fiz uma frase em "Linhas tortas": "Escuto os corações como um cardiologista/ Traduzo o que eles dizem como faz qualquer artista". Pelas histórias que escuto hoje, tenho certeza de que a música tem poder de influenciar pessoas para o bem, para a reflexão. Minha linha todo mundo já conhece. Essa música é reflexão e desabafo de um povo que quer dignidade, quer ter segurança, saúde, tudo que outros países conseguem dar e que a gente tinha tudo para ter. A letra traduz o que está no coração de muita gente. A gente tem mecanismos e o sistema todo desenhado para funcionar. Até essa questão do povo dividido eu citei: "o povo que se mata desunido", "o povo que se mata por partido". O Brasil não tinha essa tradição, esse histórico de intolerância, de as pessoas não conseguirem nem mais discutir.

Por que filmar na Amazônia?

Ia fazer um clipe mais simples para ser mais rápido. mas ao mostrar para o Tom, meu filho de 15 anos, ele disse: "Você tem que filmar na Amazônia". Adorei a ideia.

O discurso anticorrupção foi o que sustentou todo o processo de impeachment. E é o que sustenta a ascensão de candidaturas como a de Bolsonaro (e, no passado, a de Collor). A música assume claramente esse discurso. Em que essa fala sua se diferencia da fala de quem derrubou Dilma, ou de quem apoiou Collor e apoia Bolsonaro?

O discurso anticorrupção está certo, o problema é que as pessoas se aproveitam dele. Corrupção é a mãe de muitos problemas, e na minha música "Pega ladrão" isso está claro: "A miséria só existe porque tem corrupção". E o Brasil ainda vai mais longe, porque corrupção tem em todo o mundo, mas a gente tem além disso a impunidade escancarada. O discurso anticorrupção não está errado, errado é o discurso de quem engana o eleitor, dizendo que vai fazer milagre, que vai acabar com a corrupção. Não tem salvador da pátria, mas muitos eleitores infelizmente caem nessa.


Com informações do site O Globo

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